segunda-feira, 25 de outubro de 2010

MUDANÇA

Amigos, vou me despedindo desse endereço onde, nos últimos 20 meses vivi e onde deixarei minhas marcas, textos, artigos, contos, alegrias, fotos e posições políticas. Respirei fundo pare escrever nesse blog várias vezes de fica aqui um pouco de mim. Agora, graças ao meu primo super competente de descolado, vou para o novo endereço:


Te vejo por lá!

Tchau!

NOVO CONTO

Caros, depois de um bom tempo sem fazer contos (meu maior prazer), eis aqui o novo filho bastardo.

Boa leitura!

Amores Arquitetados

Trabalhar na repartição de projetos de um grande escritório de arquitetura sempre foi o sonho de Ana Paula. Até conseguir realizá-lo. Desde então, sua vida é catalogar, catalogar e catalogar. E catalogava o dia todo. Eram centenas de projetos em andamento. Dezenas de arquitetos e uma ou duas dúzias de estagiários, estudantes, para resolver todos os problemas que demandassem tempo ou prejudicassem o processo criativo daquele bando de pensadores de óculos retangulares, cabelos sempre bagunçados, roupas transadas e vidas comprometidas com seus projetos mirabolantes que, ao final, acabam virando o senso comum do cliente. E ela catalogava todos os impressos, correções, alterações, pedidos, anotações e ideias, em todas aquelas pastas. A fachada do escritório, localizado em Perdizes, pouco dizia sobre o porão onde ficava o arquivo e a mesa de Ana, onde ela passava todas as tardes, das duas às seis, catalogando, catalogando e catalogando. Sozinha. Enquanto fazia seu trabalho, aproveitava para bisbilhotar os projetos e pensar em ideais. Imaginava-se arquiteta e propunha, mentalmente, modificações que nunca poderia fazer. Pontuava algumas anotações em seu pequeno caderno, apenas para extrapolar os ânimos. Sonhava com o dia em que poderia ter uma mesa no primeiro andar, ao lado do Arquiteto que dá o nome à grande fachada. Vivia em um mundo seu. Incubado. Perdido.

Às seis ia para casa. São Paulo, nessa hora, sempre parece maior do que realmente é. Geralmente, optava pela caminhada. Mesmo quando chovia. Escolheu o curso de Arquitetura não só pela vontade de projetar, mas porque sempre gostou de observar o espaço. Entendê-lo. E, para isso, é preciso andar. Andar bastante. Até sua casa o relógio acusava 40 minutos de calçada, ao lado de viadutos, avenidas e carros. Passava por um cemitério, por um hospital, por algumas floriculturas. Passava por pessoas. Uma “profusão de cores e de sons”. De segunda à sexta essa era sua verdade urbana.

Há dias, porém, que pensamentos e angústias secretas tomam contam das pessoas e, naquele dia, ela apressou o passo.

Passo largo. Passo preciso. Olhou pouco para as flores. Olhou pouco nos olhos. Não olhou as pontas das cruzes sobre lápides. Completou o percurso em vinte e cinco minutos. Não passou na padaria. Não comprou frutas. Não viu o pôr do sol por entre aqueles dois prédios que, por alguma ironia da cidade, recebia o sol poente por dentre suas paredes. Entrou em casa sem dar boa tarde ao porteiro. Preferiu a escada. Abriu a porta. Parou. O gato roçava sua perna esquerda. Como num gesto automático abaixou-se e afagou-lhe. Largou a pasta de papéis sobre a mesa redonda da sala, fechou as cortinas e os blackouts para garantir a noite prematura. Foi ao banheiro. Olhou-se no espelho por um longo segundo. Tirou os óculos. A marca da armação no nariz era um segredo. Abriu o pequeno armário por detrás do espelho e apanhou o pote de comprimidos, sem rótulo, e derrubou três na mão esquerda. Guardou o pote, fechou o armário, olhou novamente seus olhos e, com a água na concha formada pela mão direita tomou todos os três. Depois lavou o rosto.

Tirou os tênis e caminhou até a cama arrancando a roupa. Nua, deitou, apagou as luzes, ligou o abajur, olhou para o teto e esperou o sono. “Um já bastava” - pensou. O peso das pálpebras era gigantesco. Fechou os olhos.


- Achei que não mais viria.
- Aqui estou.
- O jovem de cabelos loiros e cacheados virou de costas.
- Eu vim o mais rápido que pude. Agora não chega a ser sete horas e já estou aqui dormindo.
- Creio que não goste mais de estar aqui comigo.
- Eu gosto.
- Toma remédios para vir.
- Tomo para vir mais rápido.
- Toma para conseguir chegar.
- Eu trouxe flores ontem.
- Eu as vi.
- E então.
- Não sei. Creio que eu vá embora, Ana.
- Mas e nós?
- Meus sentimentos estão confusos. Preciso de um tempo.
- Não faça isso comigo. Eu te amo.
- Deixe de bobagem. Como pode amar alguém que só existe em seus sonhos?
- Quem garante ser um sonho? Pode ser o mundo lá fora um sonho. Pode ser esse o mundo real. Ana, entenda. Estamos agora no mundo dos sonhos. Veja o céu: sempre azul. Veja as paredes: de tecido com pinturas artnoveau. Você inventou esse mundo. Você me inventou. Os seus projetos são todos de mentira. É uma pessoa que sonha com tudo que quer ser e não é. Repare: não há barulho e não precisamos de dinheiro para nada. Somos livres e estamos sozinhos. Como pode achar que esse não é o sonho?
- Eu acredito.
- E nem está nua. Dormiu nua, não dormiu? Esse vestido nem sequer existe. E pior, você enxerga sem óculos!

Ana pára. Chora em silêncio.

- Tudo bem. Eu vou embora desse lugar.
- Vai parar de sonhar?
- Vou.
- Como? Tomou remédio.
- Mas eu consigo voltar.
- Claro que não consegue.
- Consigo.
- Eu vou embora. Fique aí sentada até o efeito do remédio passar.

Ele se vai e ela fica ali por longas horas. Acordada em seu sono, pensando nos momentos que viveu com ele. Nos sonhos. Nos amores que perdeu e nos remédios.

Acorda. Ainda está nua, enroscada nos lençóis. Faz frio em São Paulo. Abre a cortina e confere se já é dia. O relógio aponta uma da tarde. Olha o céu e o vê nublado. Está novamente no mundo. Afaga o gato. Faz um chá. Recolhe as roupas. Pega seus materiais e sai. Perdeu o dia de aula. Resta o trabalho. Vai observando os olhares. Apreciando a cidade, que hoje parece um pouco mais triste, combinando com o céu, com seus sonhos perdidos. No escritório, pega um café e desce ao porão. Começa a catalogar e, entre um projeto e outro, pensa nos mundos. Para Ana, o dia será longo e os remédios acabaram.


sábado, 23 de outubro de 2010

A CIDADE QUE QUEREMOS

Calçadas, Acessos e Rampas

- Oi. Onde fica o escritório de vocês.

- Fica na Rua XXX. Sabe onde é?

- Sei. E tem acesso?

- Como assim?

- Sou cadeirante. Há uma rampa para mim?

- ... (SILÊNCIO. VERGONHA) Não. Infelizmente não.

Como é difícil se locomover a pé em nossa cidade. Semana passada falamos dos deslocamentos através de bicicleta, ônibus ou carro. Agora falaremos dos pequenos trajetos do dia-a-dia. O projeto calçadas inovou e propôs a melhoria da circulação, não só para deficiente visuais e cadeirantes, mas também para pessoas idosas, gestantes, crianças e pessoas sem necessidade especial, que podem andar por alguns trechos da cidade sem se preocupar com desníveis, causadores de lesões. O problema é que não colou. Quando os órgãos públicos ameaçaram de multar os proprietários correram para adequar suas calçadas, mas foi só afrouxar um pouco e pronto: não vejo mais calçadas sendo construídas por aí. E quando constroem, na maioria das vezes, é com medo da multa. Então acontecem as aberrações vistas por aí: faixa tátil que faz o deficiente visual bater no poste ou no orelhão, calçada reformada, mas com degrau, faixas que não se encontram devido a falta de entendimento dos donos de imóveis, etc. Eu ficaria linhas e linhas aqui citando os problemas. Como, nessa fase, não vou tentar apresentar propostas e, somente, diagnosticar, fica a dica: a cidade tem que ser acessível, permitir circulação. Isso se chama respeito.

Devemos rever também nossos acessos. Vi ontem um escritório em que a calçada está impecável, mas há um degrau na entrada. Dia desses passei por um local em que há uma rampa, mas a inclinação dela está, visivelmente, irregular, impossível para um cadeirante. Isso reforça a tese que fazemos tudo por obrigação, não por cidadania. Salvo raros casos, exceções.

Sempre digo que nossa cidade tem a oportunidade única de ser um exemplo: temos belezas naturais, potencial de crescimento, pluralidade étnica/cultural e, principalmente, somos uma cidade pequena (média, talvez) e em crescimento. Isso quer dizer que não temos (ainda) o tamanho (e os problemas) de outras cidades Brasileiras, de grande porte. Se tomarmos cuidado, cresceremos com uma qualidade urbana excepcional. Basta nós querermos, planejarmos e, principalmente, fazermos isso com cidadania e amor.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A consciência que faz moda

texto produzido para www.beevo.com.br/blog

* Luiz Henrique Dias

O mundo passa por uma revolução. Isso é um fato. As relações exaustivamente destrutivas tendem a entrar em declínio e a dar espaço o socialmente correto e ecologicamente viável. Esse novo mundo, com cara, atitude e estilo, ao contrário de outros tempos, não surge de cima para baixo, o Estado para as pessoas. E sim de baixo para cima. De nós, pessoas, para as instituições, privadas ou públicas. O Fordismo conta as horas para morrer e hoje a personalização das ideias e serviços dita o novo modelo econômico, mais pessoal e porque não dizer, mais humano.

A atitude, portanto, sai de nós, cidadãos comuns, cada vez mais incomuns.

Quando me convidam para escrever (o que mais gosto de fazer na vida, diga-se de passagem), sou sempre seletivo. Exijo meu ponto de vista na íntegra. Coloco regras. Faço isso porque, geralmente, os veículos querem impor padrões, temáticas, formas. E isso incomoda a todos. Incomoda a mim. Produzir materiais escritos para veículos agradáveis é um destino quase impossível na vida de um escritor. Poucos conseguem. Mas eu tenho tido sorte.

Nos últimos meses, inúmeros convites para sites e espaços agradáveis aos meus olhos tem sido feitos e, prontamente, aceitos. Para esses canais, com públicos exclusivos e personalizados, escrevo sempre de forma inédita e com um sorriso na ponta dos dedos. Por isso aceitei ocupar esse espaço aqui na Beevo.

Conheci o site quando vendia camisetas. Virei fã. Fã da proposta, dos produtos, do estilo e do público. Por isso aceitei e convido você para, junto comigo, todas as terças, passear por crônicas sobre sustentabilidade social e ambiental, humanização da cidade e, é claro, cultura, atitude e tendência da cidade e para a cidade.

Traremos fotos, sugestões, debates e ideias. Em outubro o tema será Foz do Iguaçu. Novembro vamos passear por Curitiba, dezembro sentir o ar da capital paulista e, em janeiro, falar das impressões porteñas de Buenos Aires.

Faço o convite e espero você aqui!

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Sol em Curitiba

Agora pouco me ligou uma amiga lá de Foz:
- Luiz. Onde você está?
- Em Curitiba.
Silêncio
- Luiz, assim, sacanagem. Se não quiser falar comigo, não fale. Mas eu te vi em Foz agora pouco, indo para o trabalho.
- Meu, estou em Curitiba.
Splash!
Ela deve ter me visto no ponto de ônibus às 06h45. Peguei o voo das 07h30 para Curitiba.
E é sobre essas menos de 3 horas acordado que quero falar agora.
A monotomia da vida sempre me cansa. E eu costumo resolver ela inventando algo novo para fazer. Acordei precisamente às 06h. O despertador tocou e de pronto coloquei-me de pé. Afinal, hoje é dia de Núcleo de Dramaturgia, talvez a atividade mais cara e mais prazerosa que eu já arranjei na vida. Em tempos normais (quando não tenho que faltar por agendas em Foz) são quatro viagens mensais, uma semanal. De avião (pelo horário de retorno), mas que serve a um processo de construção e profissionalização que eu não teria em Foz. Foram apenas vinte vagas na seletiva do Núcleo. Jamais perderia a oportunidade.
Entre 06h e 06h30 coloquei a roupa, comi umas bolachas, levei meu cachorro para passear, conferi a ração, a água e as cobertas dele, escolhi o livro para ler na viagem (A Arquitetura da Felicidade - Alain de Botton), verifiquei as cópias do texto que apresentarei hoje no Núcleo e saí de casa caminhando, ouvindo Oswaldo Montenegro, rumo ao ponto de ônibus que fica em frente ao Mac, na Jorge Schimmelpfeng. Por dez minutos esperei (talve seja aí que ela me viu) e rumei ao aeroporto. Nunca gostei daquela história de chegar uma hora antes. Chego sempre com, no máximo, meia hora de antecedência.
Entrando na sala de embarque, como sempre, fui parado pelo fiscal da receita que, todas as vezes, repete o mesmo discurso:
- Só passageiros podem entrar na sala. Acompanhantes devem esperar lá fora.
- Sou passageiro.
Silêncio
- Onde estão suas malas.
- Não levo mala.
Silêncio
- Onde está a passagem.
- Aboliram as passagens há alguns anos.
Silêncio
- Para onde você vai?
- Curitiba.
- O que você faz lá?
- Sou escritor.
Ele faz cara que está duvidando.
- E porque não leva malas?
- Volto daqui a pouco.
Ele continua fazendo a mesma cara.
- Ok.
- Obrigado.
No guichê, outra tensão:
- Olá. Vou para Curitiba.
- O senhor não sabe que deve chegar uma hora antes?
- Eu sei. Mas eu vim de coletivo.
- Vou deixar o senhor embarcar só dessa vez.
- (em pensamente) Ela falou isso na semana passada.
- Aqui está seu ticket.
- Obrigado.
Entrei no avião e passei a viagem lendo e rabiscando uma poesia, comi uma torradinha com café, coisa da TAM. Eu tenho medo de avião. Muito medo. Só olhei para fora três vezes: para ver as Cataratas, o céu da metade do caminho e a rua da casa em que eu morava em Curitiba.
Chegando aqui, novamente a rotina: cafezinho de aeroporto (o melhor é do Santos Dumont, no Rio), ligeirinho e centro. Desembarco sempre no mesmo ponto (Centro Cívico). No caminho, dentro do ônibus, venho respondendo mensagens e avisando para as pessoas que se preocupam comigo que eu estou bem, que está frio (mas tenho blusa) e que, vejam só, o avião não caiu dessa vez.
Feito o contato com Foz, ligo para o Milton (é tradição) e caminho até a Santos Andrade onde, sempre no mesmo cyber, escrevo algo e respondo os emails do dia.
Agora vou tirar algumas cópias de textos para a Gabi, passar no Fórum para pegar um ecomenda, comer na Casa Lilás e ir para o Teatro José Maria Santos, onde vou ter que encarar o Roberto Alvim. Ele é o cara. Só que, quando não gosta dos nossos textos, é bem malvado.
Esse é minha terça-feira, 19 de outubro de 2010. Minha amiga precisa entender que eu não menti para ela. Vou explicar depois. Mas fica o registro, pois vou falar para ela ler isso depois.
Se eu sobreviver a tudo isso, volto ao Centro Cívico, pego o ligeirinho e volto ao Aeroporto. Embarco naquele AirBus cheio de turistas estranhos e volto para casa.
A ração do Snoopy só dá pra hoje e a Gabriela tem saudades. Eles precisam de mim.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Uma bela resposta sobre a cidade que queremos

Amigos, recebi uma honrosa resposta para o texto da poetagem sobre mobilidade urbana e quero compartilhar com todos.

Segue abaixo o email enviado pelo professor de urbanismo Mario Yoshinaga, (http://qualidadeurbana.blogspot.com).

Detalhe: ele publicou o email antes de mim... hehehe.

Luiz Henrique, boa noite.


Já faz uns 20 anos que não vou a Foz do Iguaçu. Naquela época era tudo calmo e não havia congestionamentos nas ruas. Ao que parece, tudo mudou.

Você tem toda razão em criticar o sistema de transportes, hoje com um cenário de congestionamentos e falta de onibus.
A culpa é da cidade, isto é, da urbanização.
Os onibus tem funcionamento eficiente muito dependente de numero de passageiros, e passageiros concentrados ao longo das rotas de onibus não acontece por acaso. Se acumula muita gente nos pontos de onibus, significa que os onibus estão vindo muito espaçados, e nessa condição as empresas de onibus ficam ( felizes) lucrativas enquanto o publico usuário do transporte coletivo fica ( insatisfeito) com serviços de má qualidade.

Se poucas pessoas estão esperando na rota de onibus, acontecem os prejuizos às companhias e bons serviços aos usuários, com viagens sentados.

A urbanização e as rotas de transportes tem buscado um equilibrio. E não é simples. É uma combinação de meios de transporte ( onibus, carros, trens, bondes) e densidade ( residencial, comercial, serviços, industrial, lazer) e a distribuição de atividades e serviços, tanto privados como públicos. Uma equação com muitas variáveis, que são por sua vez outras variáveis.


Numa cidade onde a circulação funciona bem, pouca gente se lembra de que isso é resultado de planejamentos, de revisões dos planos, e de intervencões corajosas quando necessárias. Essas ações são dificeis de acontecer quando predominam as vontades politicas, sobrepondo-se aos estudos técnicos, e é o que tem acontecido nas nossas cidades.


Quando temos um mal que a homeopatia e remédios não conseguem curar ou são insuficientes para minimizar os efeitos, a medicina tem os recursos de cirurgia, extirpando o mal. A ação politica assemelha-se a de homeopatia, reduzindo os sintomas e mantendo as causas da doença, em alguns casos toma-se remédios, baratos de preferencia, para que o mal-estar seja afastado temporariamente.


Os sintomas de muitas cidades são de UTI, mas evita-se reconhecer o diagnóstico, e mais ainda as possibilidades de intervenções drásticas. O mal se corta pela raiz, diz o ditado popular. As cidades já passaram do ponto, e exigem-se ações corajosas, que ninguém quer assumir. Técnicamente, poder-se-ia processar os administradores anteriores por omissão e decisões incompetentes, enquadrando-as em improbidade administrativa.

Como observa a PIARC , entidade internacional de estudos rodoviários, a única intervenção significativa de adequação viária bem sucedida, e que significativamente alterou a condição de circulação na cidade, a longo prazo, foi em Paris, pelo então prefeito Barão Haussmann.


As rodovias urbanas ao nivel do solo adotadas nas cidades americanas criaram verdadeiras barreiras urbanas fragmentando as atividades das cidades; a evolução para vias elevadas também foram impactantes e, como o exemplo do minhocão em São Paulo, trouxeram a deterioração de imóveis do seu entorno; e agora as rodovias estão sendo enterradas em túneis a custos astronomicos, para alegria dos empreiteiros.

A rodovias urbanas, poderiam ser soluções se elas fossem conceituadas diferentemente, como um elemento urbano, planejadas com a participação de urbanistas, paisagistas e outros profissionais, e não deixadas nas mãos inteiramente de engenheiros rodoviários.


Essa é a minha tese para as novas concepções de cidades metropolitanas: superposição de duas urbanizações diferentes de forma compativel, cada uma com o seu sistema viário coerente com as suas atividades. São as cidades com ruas e prédios, como conhecemos e a cidade macro, ligando rodovias a centros urbanos adensados.

Para essa concepção se faz necessário dominar os viários atuais em vários niveis, combinando com as atividades urbanas.


É interessante comparar um prédio moderno com a urbanização das cidades para perceber a defasagem tecnologica. No prédio, a circulação é dimensionada de acordo com as atividades, densidade de pessoas, de cargas, tanto em situação de uso normal, nesse caso dimensionado para capacidade máxima, e nas situações de emergencia, como o de evacuação do prédio. Elevadores são dimensionados de acordo com a população nos andares, assim como as escadas, utlizadas para circulações entre pisos vizinhos e na eventualidade de desligamento dos elevadores e em emergencias.

Na cidade, a primeira dimensão das vias publicas vale para bairros que ficam inalterados ao longo do tempo, como as de zona 1 estritamente residenciais unifamiliares, assim como para áreas que posteriormente concentram predios de vários pavimentos. A relação entre pisos construidos ( solo criado) e área de vias publicas de circulação atinge grandes alterações e os congestionamentos, tanto na faixa de carros como nas faixas de pedestres acontecem. Para piorar, as áreas de pedestres recebem postes de diversas finalidades, lixeiras, cabines telefonicas, caixas de correio, árvores e floreiras.
As cidades podem ser melhoradas, mas a maior parte já deixou o mal evoluir de tal forma que só conseguirão isso com cirurgias, e para isso é necessário coragem e vontade.


Mário Yoshinaga



Cenas

domingo, 17 de outubro de 2010

A Cidade que Queremos

A arte de sair de casa

* Luiz Henrique Dias

Em Foz do Iguaçu, sair de casa é uma verdadeira aventura.

Não falo aqui da violência urbana, tão comentada por aí e que exige comentários de alguém mais entendido no tema. Falo da mobilidade do cidadão. A pergunta é: como você pode se locomover em nossa cidade?

Somos 320 mil iguaçuenses, de nascimento ou escolha, e mais 300 paraguaios, argentinos e turistas, todos se movimentando por um sistema viário subdimensionado para nossa atual demanda, pelo sistema de transporte público oligopolizado, demorado, desconfortável e caro, sem alternativas de transporte, como ciclovias e motovias.

Como nessa primeira fase do projeto não vamos apresentar propostas, o que acontecerá na segunda fase, e somente citar o problema, vamos dividir o debate em partes.

1 – Transporte Coletivo

Eis aí o grande gargalo de mobilidade de Foz do Iguaçu (e da tríplice fronteira). Certa vez, participei de uma Audiência Pública sobre o tema e vi os donos das empresas alegarem ser o motivo da falta de investimentos no serviço culpa da queda de 40% (em 10 anos) no número de passageiros, quando se analisa as estatísticas do FozTrans. Ora, um serviço ruim espanta a demanda. A cidade cresceu nos últimos 10 anos. O número de turistas dobrou no mesmo período. Foram incorporadas na cidade duas instituições federais de ensino e um parque tecnológico (todos distantes das concentrações urbanas e, com isso, de grande contribuição para demanda de transporte. Qual seria a explicação para o fato: serviço ruim. Isso obriga o cidadão a comprar seu carro e, para quem já o tem, tirá-lo da garagem com mais frequencia, quando não todos os dias. A redução do IPI e as políticas de incentivo a venda de veículos também contribuíram para o aumento do número de veículos, mas são recentes, de 2009. Nos anos interiores o péssimo serviço de transporte da cidade foi o grande impulso para a venda de carros de passeio.

O carro de passeio transporta em média, 2 passageiros. Um ônibus ocupa o espaço de 6 carros, mas transporta até 60 confortavelmente. As pessoas usariam mais o sistema de transporte se fosse eficiente. A grande crítica da população diz respeito a demora na espera e no trajeto. Não há em Foz do Iguaçu linhas inteligentes, rápidas e que “cortam caminho”. Pelo contrário. Com a queda na demanda, os donos de empresas iniciaram um processo de fusão de linhas, aumentando ainda mais o tempo de espera e deslocamento, inaceitável pela tamanho de nossa cidade.

Outro ponto importante é o conforto dos usuários. As empresas atuantes no setor mostram-se acomodadas com o oligopólio estabelecido e acabam se esquecendo do fato de operarem (e obterem lucro) com uma concessão pública. O verão de nossa cidade é um dos mais quentes do país e não temos nenhum carro do sistema equipado com condicionador de ar. Além disso, grande parte da frota não conta com rampa para cadeirante ou outra adaptação para portadores de necessidade especiais. Por fim, temos ônibus com mais de 10 anos de uso circulando em algumas linhas.


2 – Frota automotiva x Infraestrutura Viária

A frota cresceu. A cidade permanece com a mesma malha viária. Lembro-me, há dez anos, quando achava a malha de Foz suficiente para a demanda. Hoje não é mais. A aparente falta de adequado planejamento, junto com falta de recursos para a manutenção da estrutura existente, criaram um gargalo urbano cada vez mais infindável. O asfalto da cidade está vencido e esburacado.

Não ocorreu ainda a retirada das rotas de caminhões pesados do centro da cidade e os cruzamentos das principais vias tornam-se cada vez mais congestionados. A população, angustiada, pede a construção de viadutos, que poderiam ser evitados com planejamento adequado. Para piorar, os ônibus do transporte coletivo, que deveriam auxiliar o trânsito absorvendo parte da demanda, disputam lugar com os carros, mesmo onde não podem, como nas faixas da esquerda da Avenida JK.


3 – Acessos: aeroporto, terminais e rodoviária

Falta em Foz um terminal rodoviário que atenda a demanda. Falta, ainda, um terminal internacional regional, para organizar a chegada e a saída dos ônibus de fronteira, além de terminais urbanos nas grandes regiões da cidade. O Aeroporto precisa urgentemente de uma obra de expansão da capacidade de passageiros. O número de voo aumentou significativamente, assim como a taxa de ocupação das aeronaves.


4 – Opções para se deixar o carro em casa

Já foi citado aqui o transporte coletivo como sendo o maior vilão da mobilidade urbana em Foz do Iguaçu. Mas se pensar a cidade é ir além: ciclovias são essenciais.

Além dos benefícios ao meio ambiente, devido a não emissão de gases estufas, as bicicletas contribuem muito para a melhoria dos indicadores de saúde dos usuários. Pedalar diminui o colesterol, ajuda a evitar a obesidade e garante uma maior longevidade. Devemos pensar, também, na qualidade de vida e na forma com que os cidadãos (e os visitantes) vem uma cidade que trata bem seus ciclistas, enxergando neles não um problema, mas uma saída para diminuir o caos urbano.

Perceba, caro leitor, o tamanho do problema da mobilidade em nossa cidade. Mudar esse quadro já é mais que um dever, é respeito.




* Luiz Henrique Dias é escritor, estudante de Arquitetura e Urbanismo e Gestão Pública. Ele escreve em seu blog http://acasadohomem.blogspot.com e todas as segundas no jornal A Gazeta do Iguaçu. Nessa segunda ele irá apresentar ao Parque Tecnológico de Itaipu o projeto de extensão que será o embrião do Instituto de Pesquisas Urbanas de Foz do Iguaçu. A proposta é debater a cidade com um pouco mais de rigor acadêmico, sem perder a poesia e humanização do espaço urbano. Dá pra seguir o Luiz no Twitter também: www.twitter.com/LuizHDias.

sábado, 16 de outubro de 2010

GRUPO DE ESTUDOS UNIOESTE/ENEM

PROGRAMA

SEMANA

MATEMÁTICA

QUÍMICA

FÍSICA

SEMANA 1

FUNÇÕES

CÁLCULOS

MRU, MV, MC, QL, LP

SEMANA 2

CONTAGENS

INORGÂNICA I

TERMO E ENERGIA

SEMANA 3

TRIGONOMETRIA

INORGÂNICA II

ONDAS E ÓTICA

SEMANA 4

GEOMETRIA

ORGÂNICA

ELETROMAGNETISMO

SEMANA 5

REVISÃO

REVISÃO

REVISÃO UNIOESTE

INFORMAÇÕES 3025 3854. AULAS AOS SÁBADOS. INÍCIO EM 16/10/2010.

Um Debate Poético Sobre a Cidade

Pessoas e Atos

*Luiz Henrique Dias

Vinha eu reparando uma conversa entre duas pessoas, dia desses, num ônibus do transporte coletivo. O assunto era a corrupção na política. Como me interesso no assunto, fiquei a ouvir e, como tento não ser chato, não expressei opinião alguma. Fiquei ali, parado, apenas tentando entender o pensamento daqueles dois cidadãos de minha cidade. Confesso me emocionar ao ver duas (ou mais) pessoas falando de coisas que não sejam futebol ou o programa do momento. Nossa cidade (e nosso país) precisa ser discutida. E lá íamos nós: eles falando, eu ouvindo.

A conversa parecia estar indo bem. Os dois, um mais novo e um pouco mais velho, falavam sobre o que a corrupção pode causar no país e como o dinheiro desviado dos cofres públicos poderia ser utilizado para melhorar a vida das pessoas. Apesar de usarem frases feitas e conceitos prontos, a conversa ia bem intencionada, passando por esferas municipais, estaduais e federal, incorporando o Executivo, o Judiciário e o Legislativo e atribuindo responsabilidades a esse ou a outro nome (cada um com suas opiniões). Mesmo sem concordar com boa parte do falado pelos dois, estava encantado com o momento democrático que estava presenciando ali, no ônibus, voltando para casa. Eis que o mundo prega uma peça!

Um dos dois cidadãos, o mais velho, que comia um pacote de salgadinho durante a viagem, se esquiva na direção da janela e arremessa o pacote vazio em direção à rua.

Ao lado dele, ali no ônibus, havia uma pequena lixeira. Mas ele preferiu jogar pra fora do ônibus.

Eu que também não aceito de corrupção concordava com partes da conversa. Fiquei feliz em ver o debate. Todo tem que falar de política. Mas, eu que também sou cidadão, fico assustado ao ver atitudes tão nocivas ao convívio urbano. Os exemplos devem vir de cima para baixo e de baixo para cima. Os políticos devem dar seus exemplos, e nós também. E nossos exemplos são cidadania e voto.

***

* Luiz Henrique Dias é escritor, estudante de Arquitetura e Urbanismo e Gestão Pública e comunista (convicto). Ele é daqueles caras que acreditam no seguinte: o cara que joga um papel na rua, pode também jogar o seu voto por aí. O Luiz escreve diariamente em seu blog acasadohomem.blogspot.com . Dá pra seguir ele no Twitter também: @LuizHDias