A Cidade e o Homem
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
MUDANÇA
NOVO CONTO
Boa leitura!
Amores Arquitetados
Trabalhar na repartição de projetos de um grande escritório de arquitetura sempre foi o sonho de Ana Paula. Até conseguir realizá-lo. Desde então, sua vida é catalogar, catalogar e catalogar. E catalogava o dia todo. Eram centenas de projetos em andamento. Dezenas de arquitetos e uma ou duas dúzias de estagiários, estudantes, para resolver todos os problemas que demandassem tempo ou prejudicassem o processo criativo daquele bando de pensadores de óculos retangulares, cabelos sempre bagunçados, roupas transadas e vidas comprometidas com seus projetos mirabolantes que, ao final, acabam virando o senso comum do cliente. E ela catalogava todos os impressos, correções, alterações, pedidos, anotações e ideias, em todas aquelas pastas. A fachada do escritório, localizado em Perdizes, pouco dizia sobre o porão onde ficava o arquivo e a mesa de Ana, onde ela passava todas as tardes, das duas às seis, catalogando, catalogando e catalogando. Sozinha. Enquanto fazia seu trabalho, aproveitava para bisbilhotar os projetos e pensar em ideais. Imaginava-se arquiteta e propunha, mentalmente, modificações que nunca poderia fazer. Pontuava algumas anotações em seu pequeno caderno, apenas para extrapolar os ânimos. Sonhava com o dia em que poderia ter uma mesa no primeiro andar, ao lado do Arquiteto que dá o nome à grande fachada. Vivia em um mundo seu. Incubado. Perdido.
Às seis ia para casa. São Paulo, nessa hora, sempre parece maior do que realmente é. Geralmente, optava pela caminhada. Mesmo quando chovia. Escolheu o curso de Arquitetura não só pela vontade de projetar, mas porque sempre gostou de observar o espaço. Entendê-lo. E, para isso, é preciso andar. Andar bastante. Até sua casa o relógio acusava 40 minutos de calçada, ao lado de viadutos, avenidas e carros. Passava por um cemitério, por um hospital, por algumas floriculturas. Passava por pessoas. Uma “profusão de cores e de sons”. De segunda à sexta essa era sua verdade urbana.
Há dias, porém, que pensamentos e angústias secretas tomam contam das pessoas e, naquele dia, ela apressou o passo.
Passo largo. Passo preciso. Olhou pouco para as flores. Olhou pouco nos olhos. Não olhou as pontas das cruzes sobre lápides. Completou o percurso em vinte e cinco minutos. Não passou na padaria. Não comprou frutas. Não viu o pôr do sol por entre aqueles dois prédios que, por alguma ironia da cidade, recebia o sol poente por dentre suas paredes. Entrou em casa sem dar boa tarde ao porteiro. Preferiu a escada. Abriu a porta. Parou. O gato roçava sua perna esquerda. Como num gesto automático abaixou-se e afagou-lhe. Largou a pasta de papéis sobre a mesa redonda da sala, fechou as cortinas e os blackouts para garantir a noite prematura. Foi ao banheiro. Olhou-se no espelho por um longo segundo. Tirou os óculos. A marca da armação no nariz era um segredo. Abriu o pequeno armário por detrás do espelho e apanhou o pote de comprimidos, sem rótulo, e derrubou três na mão esquerda. Guardou o pote, fechou o armário, olhou novamente seus olhos e, com a água na concha formada pela mão direita tomou todos os três. Depois lavou o rosto.
Tirou os tênis e caminhou até a cama arrancando a roupa. Nua, deitou, apagou as luzes, ligou o abajur, olhou para o teto e esperou o sono. “Um já bastava” - pensou. O peso das pálpebras era gigantesco. Fechou os olhos.
- Aqui estou.
- O jovem de cabelos loiros e cacheados virou de costas.
- Eu vim o mais rápido que pude. Agora não chega a ser sete horas e já estou aqui dormindo.
- Creio que não goste mais de estar aqui comigo.
- Eu gosto.
- Toma remédios para vir.
- Tomo para vir mais rápido.
- Toma para conseguir chegar.
- Eu trouxe flores ontem.
- Eu as vi.
- E então.
- Não sei. Creio que eu vá embora, Ana.
- Mas e nós?
- Meus sentimentos estão confusos. Preciso de um tempo.
- Não faça isso comigo. Eu te amo.
- Deixe de bobagem. Como pode amar alguém que só existe em seus sonhos?
- Quem garante ser um sonho? Pode ser o mundo lá fora um sonho. Pode ser esse o mundo real. Ana, entenda. Estamos agora no mundo dos sonhos. Veja o céu: sempre azul. Veja as paredes: de tecido com pinturas artnoveau. Você inventou esse mundo. Você me inventou. Os seus projetos são todos de mentira. É uma pessoa que sonha com tudo que quer ser e não é. Repare: não há barulho e não precisamos de dinheiro para nada. Somos livres e estamos sozinhos. Como pode achar que esse não é o sonho?
- Eu acredito.
- E nem está nua. Dormiu nua, não dormiu? Esse vestido nem sequer existe. E pior, você enxerga sem óculos!
Ana pára. Chora em silêncio.
- Tudo bem. Eu vou embora desse lugar.
- Vai parar de sonhar?
- Vou.
- Como? Tomou remédio.
- Mas eu consigo voltar.
- Claro que não consegue.
- Consigo.
- Eu vou embora. Fique aí sentada até o efeito do remédio passar.
Ele se vai e ela fica ali por longas horas. Acordada em seu sono, pensando nos momentos que viveu com ele. Nos sonhos. Nos amores que perdeu e nos remédios.
Acorda. Ainda está nua, enroscada nos lençóis. Faz frio em São Paulo. Abre a cortina e confere se já é dia. O relógio aponta uma da tarde. Olha o céu e o vê nublado. Está novamente no mundo. Afaga o gato. Faz um chá. Recolhe as roupas. Pega seus materiais e sai. Perdeu o dia de aula. Resta o trabalho. Vai observando os olhares. Apreciando a cidade, que hoje parece um pouco mais triste, combinando com o céu, com seus sonhos perdidos. No escritório, pega um café e desce ao porão. Começa a catalogar e, entre um projeto e outro, pensa nos mundos. Para Ana, o dia será longo e os remédios acabaram.
sábado, 23 de outubro de 2010
A CIDADE QUE QUEREMOS
Calçadas, Acessos e Rampas
- Oi. Onde fica o escritório de vocês.
- Fica na Rua XXX. Sabe onde é?
- Sei. E tem acesso?
- Como assim?
- Sou cadeirante. Há uma rampa para mim?
- ... (SILÊNCIO. VERGONHA) Não. Infelizmente não.
Como é difícil se locomover a pé em nossa cidade. Semana passada falamos dos deslocamentos através de bicicleta, ônibus ou carro. Agora falaremos dos pequenos trajetos do dia-a-dia. O projeto calçadas inovou e propôs a melhoria da circulação, não só para deficiente visuais e cadeirantes, mas também para pessoas idosas, gestantes, crianças e pessoas sem necessidade especial, que podem andar por alguns trechos da cidade sem se preocupar com desníveis, causadores de lesões. O problema é que não colou. Quando os órgãos públicos ameaçaram de multar os proprietários correram para adequar suas calçadas, mas foi só afrouxar um pouco e pronto: não vejo mais calçadas sendo construídas por aí. E quando constroem, na maioria das vezes, é com medo da multa. Então acontecem as aberrações vistas por aí: faixa tátil que faz o deficiente visual bater no poste ou no orelhão, calçada reformada, mas com degrau, faixas que não se encontram devido a falta de entendimento dos donos de imóveis, etc. Eu ficaria linhas e linhas aqui citando os problemas. Como, nessa fase, não vou tentar apresentar propostas e, somente, diagnosticar, fica a dica: a cidade tem que ser acessível, permitir circulação. Isso se chama respeito.
Devemos rever também nossos acessos. Vi ontem um escritório em que a calçada está impecável, mas há um degrau na entrada. Dia desses passei por um local em que há uma rampa, mas a inclinação dela está, visivelmente, irregular, impossível para um cadeirante. Isso reforça a tese que fazemos tudo por obrigação, não por cidadania. Salvo raros casos, exceções.
Sempre digo que nossa cidade tem a oportunidade única de ser um exemplo: temos belezas naturais, potencial de crescimento, pluralidade étnica/cultural e, principalmente, somos uma cidade pequena (média, talvez) e em crescimento. Isso quer dizer que não temos (ainda) o tamanho (e os problemas) de outras cidades Brasileiras, de grande porte. Se tomarmos cuidado, cresceremos com uma qualidade urbana excepcional. Basta nós querermos, planejarmos e, principalmente, fazermos isso com cidadania e amor.
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
A consciência que faz moda
texto produzido para www.beevo.com.br/blog
terça-feira, 19 de outubro de 2010
Sol em Curitiba
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
Uma bela resposta sobre a cidade que queremos
Segue abaixo o email enviado pelo professor de urbanismo Mario Yoshinaga, (http://qualidadeurbana.blogspot.com).
Detalhe: ele publicou o email antes de mim... hehehe.
Luiz Henrique, boa noite.
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domingo, 17 de outubro de 2010
A Cidade que Queremos
* Luiz Henrique Dias
Em Foz do Iguaçu, sair de casa é uma verdadeira aventura.
Não falo aqui da violência urbana, tão comentada por aí e que exige comentários de alguém mais entendido no tema. Falo da mobilidade do cidadão. A pergunta é: como você pode se locomover em nossa cidade?
Somos 320 mil iguaçuenses, de nascimento ou escolha, e mais 300 paraguaios, argentinos e turistas, todos se movimentando por um sistema viário subdimensionado para nossa atual demanda, pelo sistema de transporte público oligopolizado, demorado, desconfortável e caro, sem alternativas de transporte, como ciclovias e motovias.
Como nessa primeira fase do projeto não vamos apresentar propostas, o que acontecerá na segunda fase, e somente citar o problema, vamos dividir o debate em partes.
1 – Transporte Coletivo
Eis aí o grande gargalo de mobilidade de Foz do Iguaçu (e da tríplice fronteira). Certa vez, participei de uma Audiência Pública sobre o tema e vi os donos das empresas alegarem ser o motivo da falta de investimentos no serviço culpa da queda de 40% (em 10 anos) no número de passageiros, quando se analisa as estatísticas do FozTrans. Ora, um serviço ruim espanta a demanda. A cidade cresceu nos últimos 10 anos. O número de turistas dobrou no mesmo período. Foram incorporadas na cidade duas instituições federais de ensino e um parque tecnológico (todos distantes das concentrações urbanas e, com isso, de grande contribuição para demanda de transporte. Qual seria a explicação para o fato: serviço ruim. Isso obriga o cidadão a comprar seu carro e, para quem já o tem, tirá-lo da garagem com mais frequencia, quando não todos os dias. A redução do IPI e as políticas de incentivo a venda de veículos também contribuíram para o aumento do número de veículos, mas são recentes, de 2009. Nos anos interiores o péssimo serviço de transporte da cidade foi o grande impulso para a venda de carros de passeio.
O carro de passeio transporta em média, 2 passageiros. Um ônibus ocupa o espaço de 6 carros, mas transporta até 60 confortavelmente. As pessoas usariam mais o sistema de transporte se fosse eficiente. A grande crítica da população diz respeito a demora na espera e no trajeto. Não há em Foz do Iguaçu linhas inteligentes, rápidas e que “cortam caminho”. Pelo contrário. Com a queda na demanda, os donos de empresas iniciaram um processo de fusão de linhas, aumentando ainda mais o tempo de espera e deslocamento, inaceitável pela tamanho de nossa cidade.
Outro ponto importante é o conforto dos usuários. As empresas atuantes no setor mostram-se acomodadas com o oligopólio estabelecido e acabam se esquecendo do fato de operarem (e obterem lucro) com uma concessão pública. O verão de nossa cidade é um dos mais quentes do país e não temos nenhum carro do sistema equipado com condicionador de ar. Além disso, grande parte da frota não conta com rampa para cadeirante ou outra adaptação para portadores de necessidade especiais. Por fim, temos ônibus com mais de 10 anos de uso circulando em algumas linhas.
2 – Frota automotiva x Infraestrutura Viária
A frota cresceu. A cidade permanece com a mesma malha viária. Lembro-me, há dez anos, quando achava a malha de Foz suficiente para a demanda. Hoje não é mais. A aparente falta de adequado planejamento, junto com falta de recursos para a manutenção da estrutura existente, criaram um gargalo urbano cada vez mais infindável. O asfalto da cidade está vencido e esburacado.
Não ocorreu ainda a retirada das rotas de caminhões pesados do centro da cidade e os cruzamentos das principais vias tornam-se cada vez mais congestionados. A população, angustiada, pede a construção de viadutos, que poderiam ser evitados com planejamento adequado. Para piorar, os ônibus do transporte coletivo, que deveriam auxiliar o trânsito absorvendo parte da demanda, disputam lugar com os carros, mesmo onde não podem, como nas faixas da esquerda da Avenida JK.
3 – Acessos: aeroporto, terminais e rodoviária
Falta em Foz um terminal rodoviário que atenda a demanda. Falta, ainda, um terminal internacional regional, para organizar a chegada e a saída dos ônibus de fronteira, além de terminais urbanos nas grandes regiões da cidade. O Aeroporto precisa urgentemente de uma obra de expansão da capacidade de passageiros. O número de voo aumentou significativamente, assim como a taxa de ocupação das aeronaves.
4 – Opções para se deixar o carro em casa
Já foi citado aqui o transporte coletivo como sendo o maior vilão da mobilidade urbana em Foz do Iguaçu. Mas se pensar a cidade é ir além: ciclovias são essenciais.
Além dos benefícios ao meio ambiente, devido a não emissão de gases estufas, as bicicletas contribuem muito para a melhoria dos indicadores de saúde dos usuários. Pedalar diminui o colesterol, ajuda a evitar a obesidade e garante uma maior longevidade. Devemos pensar, também, na qualidade de vida e na forma com que os cidadãos (e os visitantes) vem uma cidade que trata bem seus ciclistas, enxergando neles não um problema, mas uma saída para diminuir o caos urbano.
Perceba, caro leitor, o tamanho do problema da mobilidade em nossa cidade. Mudar esse quadro já é mais que um dever, é respeito.
* Luiz Henrique Dias é escritor, estudante de Arquitetura e Urbanismo e Gestão Pública. Ele escreve em seu blog http://acasadohomem.blogspot.com e todas as segundas no jornal A Gazeta do Iguaçu. Nessa segunda ele irá apresentar ao Parque Tecnológico de Itaipu o projeto de extensão que será o embrião do Instituto de Pesquisas Urbanas de Foz do Iguaçu. A proposta é debater a cidade com um pouco mais de rigor acadêmico, sem perder a poesia e humanização do espaço urbano. Dá pra seguir o Luiz no Twitter também: www.twitter.com/LuizHDias.
sábado, 16 de outubro de 2010
GRUPO DE ESTUDOS UNIOESTE/ENEM
PROGRAMA
| SEMANA | MATEMÁTICA | QUÍMICA | FÍSICA |
| SEMANA 1 | FUNÇÕES | CÁLCULOS | MRU, MV, MC, QL, LP |
| SEMANA 2 | CONTAGENS | INORGÂNICA I | TERMO E ENERGIA |
| SEMANA 3 | TRIGONOMETRIA | INORGÂNICA II | ONDAS E ÓTICA |
| SEMANA 4 | GEOMETRIA | ORGÂNICA | ELETROMAGNETISMO |
| SEMANA 5 | REVISÃO | REVISÃO | REVISÃO UNIOESTE |
Um Debate Poético Sobre a Cidade
Pessoas e Atos
*Luiz Henrique Dias
Vinha eu reparando uma conversa entre duas pessoas, dia desses, num ônibus do transporte coletivo. O assunto era a corrupção na política. Como me interesso no assunto, fiquei a ouvir e, como tento não ser chato, não expressei opinião alguma. Fiquei ali, parado, apenas tentando entender o pensamento daqueles dois cidadãos de minha cidade. Confesso me emocionar ao ver duas (ou mais) pessoas falando de coisas que não sejam futebol ou o programa do momento. Nossa cidade (e nosso país) precisa ser discutida. E lá íamos nós: eles falando, eu ouvindo.
A conversa parecia estar indo bem. Os dois, um mais novo e um pouco mais velho, falavam sobre o que a corrupção pode causar no país e como o dinheiro desviado dos cofres públicos poderia ser utilizado para melhorar a vida das pessoas. Apesar de usarem frases feitas e conceitos prontos, a conversa ia bem intencionada, passando por esferas municipais, estaduais e federal, incorporando o Executivo, o Judiciário e o Legislativo e atribuindo responsabilidades a esse ou a outro nome (cada um com suas opiniões). Mesmo sem concordar com boa parte do falado pelos dois, estava encantado com o momento democrático que estava presenciando ali, no ônibus, voltando para casa. Eis que o mundo prega uma peça!
Um dos dois cidadãos, o mais velho, que comia um pacote de salgadinho durante a viagem, se esquiva na direção da janela e arremessa o pacote vazio em direção à rua.
Ao lado dele, ali no ônibus, havia uma pequena lixeira. Mas ele preferiu jogar pra fora do ônibus.
Eu que também não aceito de corrupção concordava com partes da conversa. Fiquei feliz em ver o debate. Todo tem que falar de política. Mas, eu que também sou cidadão, fico assustado ao ver atitudes tão nocivas ao convívio urbano. Os exemplos devem vir de cima para baixo e de baixo para cima. Os políticos devem dar seus exemplos, e nós também. E nossos exemplos são cidadania e voto.
* Luiz Henrique Dias é escritor, estudante de Arquitetura e Urbanismo e Gestão Pública e comunista (convicto). Ele é daqueles caras que acreditam no seguinte: o cara que joga um papel na rua, pode também jogar o seu voto por aí. O Luiz escreve diariamente em seu blog acasadohomem.blogspot.com . Dá pra seguir ele no Twitter também: @LuizHDias
